A instabilidade anterior do ombro, quando a cabeça do úmero escapa para a frente, tem tratamentos cirúrgicos com nomes que se confundem. Latarjet, Bristow e Trillat aparecem juntos com frequência, mas a história por trás deles é mais curiosa do que parece: envolve uma ideia alemã dos anos 1920, uma rivalidade entre dois cirurgiões de Lyon e uma cirurgia que saiu do roteiro.
Antes de Latarjet: a técnica de Noesske
Em 1924, o cirurgião alemão Noesske, de Dresden, publicou uma técnica que consistia em cortar a base do processo coracoide e deslocá-lo, com a ponta fixada à glenoide por um pino ou parafuso. Décadas depois, essa ideia serviu de base para o trabalho do francês Albert Trillat.

Trillat, em Lyon
Entre 1950 e 1953, Albert Trillat, ortopedista de Lyon, operou 17 casos de luxação anterior recidivante com uma técnica própria, inspirada em Noesske. O coracoide era deslocado para dentro e para baixo, e o tendão conjunto funcionava como uma funda que mantinha o músculo subescapular encostado no rebordo anterior da glenoide. A ideia era fechar o descolamento do lábrum, a lesão de Bankart, e impedir a saída da cabeça do úmero.
Em 11 de março de 1954, Trillat apresentou a série na Sociedade de Cirurgia de Lyon. O artigo saiu na revista Lyon Chirurgical em novembro daquele ano.
Latarjet e a cirurgia que saiu do roteiro
Em 1953, Michel Latarjet, cirurgião do mesmo hospital universitário, foi à sala de Trillat para ver a técnica. Ao tentar reproduzir o procedimento num paciente, quebrou o coracoide por completo, que ficou solto. Mesmo assim, fixou o fragmento ao colo da escápula através do subescapular, e o paciente evoluiu bem. Num segundo caso, fez a osteotomia completa de propósito e apresentou o que chamou de “nova técnica” no mesmo grupo de Lyon, uma semana depois de Trillat. Os dois artigos foram publicados lado a lado, no mesmo número da revista.
Foi aí que começou a rivalidade entre os dois. Ao longo de 1958, 1961 e 1964, Latarjet mudou a técnica: passou a cortar o subescapular e a repará-lo com encurtamento, e posicionou o coracoide mais alto e mais medial. Segundo relatos de cirurgiões formados na escola de Lyon, a intenção de Latarjet nunca foi a consolidação do osso. Ele queria reinserir os ligamentos da frente do ombro no rebordo da glenoide, como num reparo de Bankart.
Bristow: o nome que ficou
Em 1958, o sul-africano Helfet publicou uma variante em que a ponta do coracoide era fixada com suturas, e não com parafuso. Ele atribuiu a técnica a seu antigo chefe, Rowley Bristow, do Reino Unido, que a ensinava durante a Segunda Guerra Mundial. Nos Estados Unidos, Virgil May relatou a fixação com parafuso em 1970, sem conhecer os trabalhos franceses.
Daí vem a confusão: o mesmo procedimento aparece como Bankart-Bristow-Latarjet, Latarjet ou Bristow. Hoje, a maioria dos textos usa “Latarjet” para todas as transferências de coracoide.
Patte e o efeito de “triplo bloqueio”
Nos anos 1970, o francês Didier Patte, de Paris, revisou e popularizou a técnica de Latarjet. Ele descreveu três mecanismos de estabilização:
- Efeito de rede (“sling”): o tendão conjunto, que vem preso ao coracoide, passa sobre a parte de baixo do subescapular e segura a frente do ombro quando o braço está aberto e girado para fora;
- Efeito ósseo: o coracoide aumenta o diâmetro da glenoide na frente;
- Efeito ligamentar: o coto do ligamento coracoacromial, que vem junto com o coracoide, é suturado à cápsula.
Na própria escola de Lyon, a técnica de Trillat continuou sendo usada por anos, até ser gradualmente substituída pela versão Latarjet-Patte modificada, que se consolidou no fim dos anos 1980 e é a base da técnica usada até hoje.
O que sabemos sobre o resultado
A cirurgia de Trillat teve cerca de 14% de recidiva numa série de 250 casos. Estudos de biomecânica indicam que o efeito mais importante para a estabilidade é o de funda muscular, mais do que o efeito ósseo ou o ligamentar. Como as variações técnicas são muitas, comparar resultados entre estudos continua difícil.
E hoje?
A transferência do coracoide continua sendo uma das cirurgias mais usadas para a instabilidade anterior do ombro, principalmente quando há perda de osso na glenoide, quando o ombro voltou a sair depois de outra cirurgia ou em alguns atletas de contato. Pode ser feita de forma aberta ou por artroscopia. A indicação depende de cada caso e deve ser discutida com o especialista em ombro.
Perguntas frequentes
São variações da mesma ideia: transferir o processo coracoide, com o tendão conjunto, para a frente da glenoide. Hoje, a maioria dos textos usa o nome Latarjet para todas as transferências de coracoide.
Porque, como muitos procedimentos da medicina, ela leva o nome dos cirurgiões que a descreveram ou popularizaram. No caso da transferência do coracoide, vários nomes ficaram associados à técnica em países diferentes.
Sim. É uma das principais opções para a instabilidade anterior do ombro, principalmente quando há perda de osso na glenoide. A indicação é individual.
Leia também: Primeira luxação do ombro: operar agora ou esperar? · Lesão do labrum e luxação do ombro
O seu ombro já saiu do lugar mais de uma vez? Uma avaliação ajuda a entender qual tratamento faz mais sentido no seu caso.
Dr. Fillipe Agra, médico ortopedista, especialista em ombro e cotovelo. CRM/SP 201.962 · RQE 144.556. Atendimento em São Paulo (Pinheiros), Porto Feliz, Araçatuba e Andradina, e online. Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica.
Referências
- Trillat A. Traitement de la luxation récidivante de l’épaule; considérations techniques. Lyon Chir. 1954;49(8):986-93. PubMed
- Latarjet M. À propos du traitement des luxations récidivantes de l’épaule. Lyon Chir. 1954;49(8):994-7. PubMed
- Helfet AJ. Coracoid transplantation for recurring dislocation of the shoulder. J Bone Joint Surg Br. 1958;40-B(2):198-202. PubMed
- May VR Jr. A modified Bristow operation for anterior recurrent dislocation of the shoulder. J Bone Joint Surg Am. 1970;52(5):1010-6. PubMed
- Walch G. Opinion editorial: use and abuse of the Latarjet procedure. In: Rockwood and Matsen’s The Shoulder. 6ª ed. Elsevier; capítulo 44.

