É comum o paciente chegar ao consultório com uma sacola de ressonâncias feitas nos últimos dez anos e um laudo que assusta. Só que, muitas vezes, o exame de que ele mais precisa não é de imagem. É o exame físico.
O laudo da ressonância explica a minha dor?
Nem sempre. Dois pacientes com ressonâncias muito parecidas podem ter quadros completamente diferentes. Um sente dor forte, o outro não sente nada.
É frequente encontrar ruptura parcial do supraespinal em pessoas acima de 60 anos sem nenhum sintoma. Nem toda alteração dói, e nem toda alteração que aparece é a causa da dor. Por isso a imagem nunca deve ser interpretada de forma isolada.
O que o ortopedista avalia antes de olhar a imagem?
O movimento. Peço para o paciente levantar o braço, colocar a mão atrás da cabeça e tentar alcançar as costas. A dificuldade e a dor que aparecem em cada gesto já levantam hipóteses importantes.
Depois vêm os testes de força, de mobilidade e as manobras específicas. A imagem entra para confirmar o que o exame físico mostrou, e não para substituí-lo.
O que significam os termos mais comuns do laudo?
| Termo no laudo | O que quer dizer |
|---|---|
| Tendinopatia | Tendão com sinais de desgaste ou inflamação, sem ruptura |
| Ruptura parcial | Parte das fibras do tendão está rompida |
| Ruptura completa ou transfixante | A ruptura atravessa toda a espessura do tendão |
| Bursite subacromial | Inflamação da bursa, a bolsa que fica acima dos tendões |
| Artrose acromioclavicular | Desgaste da articulação entre a clavícula e o acrômio, muito comum com a idade |
| Lesão labral | Alteração no labrum, o anel que contorna o encaixe do ombro |
| Atrofia ou infiltração gordurosa | Perda de músculo e substituição por gordura, classificada de 0 a 4 |
Nenhum desses termos, sozinho, define o tratamento.
Como um especialista lê a ressonância do ombro?
Sigo sempre a mesma sequência:
- Corte coronal em T2: mostra o ombro de frente. Avalio a articulação acromioclavicular, o músculo supraespinal, o tendão e a inserção dele no osso.
- Corte sagital: mostra o ombro de lado. Acompanho o tendão em todo o trajeto, até a transição para o músculo, e observo a região do labrum.
- Corte axial: de cima para baixo. Revejo a articulação acromioclavicular e avalio o subescapular, o infraespinal e o tendão do cabo longo do bíceps.
- Corte sagital em T1: para avaliar a proporção entre músculo e gordura.
O que é a classificação de Goutallier?
É uma escala que mede quanto do músculo do manguito foi substituído por gordura. Foi descrita para tomografia e depois adaptada para ressonância.
Vai de 0, sem gordura, a 4, com mais gordura do que músculo. Ela ajuda a prever a qualidade do músculo quando se discute o reparo de um tendão. A limitação é ser subjetiva: o grau 2 para um avaliador pode ser grau 3 para outro.
Perguntas frequentes
Não. Em muitos casos é possível chegar ao diagnóstico com história e exame físico. A imagem complementa a avaliação.
Não. Muitas rupturas parciais são tratadas sem cirurgia, e algumas nem são a causa da dor.
Depende da suspeita. O raio X mostra osso e calcificações. O ultrassom e a ressonância mostram tendões. A ressonância é a mais completa para partes moles.
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Recebeu um laudo assustador? Traga o exame para uma avaliação.
Dr. Fillipe Agra, médico ortopedista, especialista em ombro e cotovelo. CRM/SP 201.962 · RQE 144.556. Atendimento em São Paulo (Pinheiros), Porto Feliz, Araçatuba e Andradina, e online. Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica.
Referências
- Matsen FA III, Cordasco FA, Sperling JW, eds. Rockwood and Matsen’s The Shoulder. 6th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. Cap. 52: Bedi A, Lee S. Evaluation of rotator cuff pathology.
- Goutallier D, Postel JM, Bernageau J, Lavau L, Voisin MC. Fatty muscle degeneration in cuff ruptures: pre- and postoperative evaluation by CT scan. Clin Orthop Relat Res. 1994;(304):78-83.


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