Meu pai tinha pouco mais de 30 anos quando bateu de moto em um cavalo. Fraturou a clavícula, foi operado e ficou com a cicatriz. Ficou também com uma história: o fio metálico usado na cirurgia aparecia sob a pele quando ele andava de moto, e ele mesmo empurrava o fio de volta.
Parece piada de família, mas descreve uma complicação real e bem conhecida: a migração do fio.
O que é o fio que migra?
Durante muito tempo, fios metálicos lisos, como os fios de Kirschner, foram usados para fixar fraturas da clavícula. O problema é que o ombro se move o tempo todo, e um fio liso pode andar dentro do osso.
Na melhor das hipóteses, ele aponta sob a pele, como aconteceu com o meu pai. Na pior, migra para dentro do tórax, onde estão o pulmão e os grandes vasos. Há casos graves descritos na literatura médica.
Por que esse método foi abandonado?
Justamente por esse risco. Hoje, fios lisos são evitados na região da clavícula e do ombro. Quando a fratura precisa de cirurgia, a fixação costuma ser feita com placa e parafusos, que dão estabilidade e não migram dessa forma.
Toda fratura da clavícula precisa de cirurgia?
Não. A maioria consolida bem sem operar, com tipoia por algumas semanas e reabilitação progressiva.
A cirurgia costuma ser discutida quando há:
- grande desvio ou encurtamento do osso;
- fragmento ameaçando perfurar a pele ou fratura exposta;
- lesão de nervo ou de vaso associada;
- várias fraturas no mesmo membro;
- falha de consolidação no tratamento sem cirurgia.
Idade, profissão e esporte também entram na decisão.
Como é a recuperação?
No tratamento sem cirurgia, a tipoia dá conforto nas primeiras semanas, e o movimento é retomado aos poucos. A consolidação costuma levar de dois a três meses. É comum ficar um calo ósseo palpável, que não atrapalha a função.
Na cirurgia com placa, o movimento começa mais cedo, mas o retorno a esportes de contato e à moto depende da consolidação confirmada no raio X.
Tenho um fio ou pino antigo no ombro. Devo me preocupar?
Se você foi operado há muitos anos e tem um material metálico na clavícula ou no ombro, vale fazer uma radiografia de controle. Procure avaliação se sentir uma ponta sob a pele, dor nova ou se o material parecer ter mudado de lugar. E não faça como o meu pai: não empurre de volta.
Perguntas frequentes
Em geral, algumas semanas, até a dor permitir o movimento. O médico ajusta conforme a fratura.
Nem sempre. Ela só é retirada se incomodar, depois que o osso estiver consolidado.
Depois da consolidação confirmada e da recuperação da força e do movimento. O prazo varia de pessoa para pessoa.
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Fraturou a clavícula e tem dúvida sobre operar? Agende uma avaliação.
Dr. Fillipe Agra, médico ortopedista, especialista em ombro e cotovelo. CRM/SP 201.962 · RQE 144.556. Atendimento em São Paulo (Pinheiros), Porto Feliz, Araçatuba e Andradina, e online. Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica.
Referências
- Lyons FA, Rockwood CA Jr. Migration of pins used in operations on the shoulder. J Bone Joint Surg Am. 1990;72(8):1262-1267.
- Canadian Orthopaedic Trauma Society. Nonoperative treatment compared with plate fixation of displaced midshaft clavicular fractures: a multicenter, randomized clinical trial. J Bone Joint Surg Am. 2007;89(1):1-10.
- Rockwood CA Jr, Matsen FA III, Wirth MA, Lippitt SB, Fehringer EV, Sperling JW, eds. Rockwood and Matsen’s The Shoulder. 5th ed. Philadelphia: Elsevier; 2017. Cap. 8: Fraturas da clavícula.


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