Quando se fala em ombro que “sai do lugar”, quase todo mundo pensa na luxação para a frente, a mais comum. Mas existem duas outras formas de instabilidade que são menos conhecidas e, por isso, muitas vezes demoram a ser diagnosticadas: a instabilidade posterior e a multidirecional.
Instabilidade posterior: a que chega como dor
A luxação posterior representa uma pequena parte das luxações do ombro. Ela costuma acontecer em crises convulsivas, choques elétricos ou quedas sobre a mão com o braço à frente. O detalhe importante é que grande parte desses casos passa sem diagnóstico no primeiro atendimento, e muitos pacientes chegam ao consultório meses depois, tratados como se tivessem um ombro congelado, porque o braço não gira para fora.
Mais comum do que a luxação completa é a subluxação posterior de repetição, que aparece em atletas que empurram com o braço à frente, como em bloqueios no futebol americano, lutas, remo e supino. Nesses casos, a queixa principal é dor, e não a sensação de que o ombro sai.
O diagnóstico exige radiografias em mais de uma incidência, especialmente a axilar, e testes específicos no exame físico. Ressonância e tomografia ajudam a ver a lesão do lábio de trás, a forma da glenoide e eventuais perdas ósseas.
Tratamento da instabilidade posterior
O primeiro passo é a reabilitação, com foco na escápula e nos músculos do manguito. Quando a dor e a instabilidade persistem por mais de três a seis meses, ou há lesão estrutural importante em jovens que praticam esportes de contato, o reparo por artroscopia tem bons resultados, e a maioria volta ao esporte.
Instabilidade multidirecional
Aqui, o ombro é instável em mais de uma direção, sempre incluindo para baixo, quase sempre sem um trauma importante. É mais frequente entre os 12 e os 35 anos, em pessoas com articulações naturalmente mais frouxas e em esportes como natação, ginástica e vôlei. Os sintomas aparecem no dia a dia: dor, cansaço e até formigamento no braço ao carregar peso, como uma mochila.
O tratamento é, antes de tudo, reabilitação bem feita e em etapas: controle da escápula, fortalecimento do manguito, propriocepção e ajuste do treino. A maioria das pessoas melhora assim. A cirurgia, que reduz o volume da cápsula por artroscopia, fica para quem não responde depois de três a seis meses de tratamento adequado.
Uma regra vale para todos: ter um ombro frouxo é diferente de ter um ombro instável. Instabilidade é sintoma, e é o sintoma, junto com a lesão que o explica, que orienta o tratamento.
Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica. Dr. Fillipe Agra, Médico Ortopedista e Cirurgião do Ombro e Cotovelo, CRM/SP 201.962, RQE 144.556.
Referências
- Matsen FA III, Cordasco FA, Sperling JW, eds. Rockwood and Matsen’s The Shoulder. 6th ed. Philadelphia: Elsevier; 2022. Parte X: Glenohumeral Instability.


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