Lesão do manguito rotador sem cirurgia: o que a fisioterapia resolve e o que ela não resolve

Lesão do manguito rotador sem cirurgia: o que a fisioterapia resolve e o que ela não resolve

Receber o laudo de “lesão completa do manguito rotador” assusta. Muita gente sai do exame achando que a cirurgia é inevitável. Na prática, não é bem assim: grandes estudos acompanharam centenas de pessoas com lesão completa, sem trauma, tratadas com um programa de fisioterapia, e cerca de oito em cada dez não precisaram operar em dois anos.

Lesão no exame não é o mesmo que dor

Lesões do manguito são muito comuns com a idade. Uma parte importante das pessoas acima de 60 anos tem alguma lesão nos tendões do ombro, e muitas nunca sentem nada. Por isso, mais do que o tamanho da lesão, o que costuma acompanhar a dor é a intensidade e a duração dos sintomas, o nível de atividade, o sono e até o estado emocional. Uma forma mais honesta de descrever muitos casos é: uma pessoa com dor no ombro que, por acaso, tem uma lesão do manguito na imagem.

O que o exercício entrega

Um programa bem orientado reduz a dor e melhora a função na maioria das pessoas. Ele inclui mobilidade e alongamentos diários e fortalecimento do manguito e da musculatura da escápula algumas vezes por semana. Em geral, começa com acompanhamento do fisioterapeuta e depois continua em casa.

Um dado curioso: nos estudos, o que mais previu quem acabaria operando não foi o tamanho da lesão, e sim a expectativa da pessoa. Quem acreditava que a fisioterapia não ia funcionar tendia a operar. Por isso, a conversa na primeira consulta já faz parte do tratamento.

O que o exercício não entrega

O exercício trata a dor, mas não fecha a lesão. Com o passar dos anos, parte das lesões completas aumenta: cerca de metade cresce em cinco anos, mais no braço dominante. E existe uma pegadinha: a dor não é um bom alarme. A lesão pode crescer sem doer, e o ombro pode voltar a doer sem que a lesão tenha crescido. Quando a lesão aumenta muito, o músculo pode ser substituído por gordura, e isso diminui a chance de um bom reparo no futuro.

Quem não deve esperar

  • lesões completas que aconteceram depois de uma queda ou esforço em um ombro que antes era normal;
  • quem perdeu força para levantar ou girar o braço;
  • lesões que envolvem mais de um tendão, com músculo ainda saudável;
  • pessoas mais jovens, com lesões maiores, que têm boa capacidade de cicatrização.

Nesses casos, o reparo precoce costuma ser a melhor escolha.

Como acompanhar

Para quem segue com o tratamento sem cirurgia, uma reavaliação por volta de 12 semanas é um bom momento para medir a evolução da dor, da força e da função. A partir daí, quando há risco de a lesão crescer, o acompanhamento com exame físico e, se necessário, imagem ajuda a não perder a janela certa para operar.

O objetivo é simples: tratar a sua dor e proteger o seu ombro no longo prazo, decidindo junto com você.

Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica. Dr. Fillipe Agra, Médico Ortopedista e Cirurgião do Ombro e Cotovelo, CRM/SP 201.962, RQE 144.556.

Referências

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  2. Kuhn JE, Dunn WR, Sanders R, et al. Effectiveness of physical therapy in treating atraumatic full-thickness rotator cuff tears: a multicenter prospective cohort study. J Shoulder Elbow Surg. 2013;22(10):1371-1379.
  3. Keener JD, Galatz LM, Teefey SA, et al. A prospective evaluation of survivorship of asymptomatic degenerative rotator cuff tears. J Bone Joint Surg Am. 2015;97(2):89-98.
  4. Kukkonen J, Joukainen A, Lehtinen J, et al. Treatment of nontraumatic rotator cuff tears: a randomized controlled trial with two years of clinical and imaging follow-up. J Bone Joint Surg Am. 2015;97(21):1729-1737.
  5. Moosmayer S, Lund G, Seljom US, et al. Seguimento de 15 anos de ensaio randomizado comparando reparo do tendão e fisioterapia em lesões pequenas e médias do manguito rotador. J Bone Joint Surg Am. 2024;106(19):1785-1796.
  6. Hopewell S, Keene DJ, Marian IR, et al. Progressive exercise compared with best practice advice, with or without corticosteroid injection, for the treatment of patients with rotator cuff disorders (GRASP): a multicentre, pragmatic, 2×2 factorial, randomised controlled trial. Lancet. 2021;398(10298):416-428.

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