“Doutor, se eu for no cirurgião, ele vai querer me operar.” É uma das frases que mais escuto no consultório, e entendo o medo. Passei anos estudando para operar ombro e cotovelo. Ainda assim, a maioria dos meus pacientes sai da consulta com um plano de tratamento sem cirurgia.
Toda dor crônica no ombro acaba em cirurgia?
Não. Cirurgia é uma entre várias opções de tratamento. Para a maior parte das pessoas, o plano inclui fisioterapia bem indicada, ajuste de carga, fortalecimento e, às vezes, infiltração.
Adiar a consulta por medo de ouvir que precisa operar costuma ter o efeito contrário. A dor se arrasta e o tratamento fica mais longo.
Quais são os 3 critérios para indicar cirurgia no ombro?
- Gravidade e extensão da lesão no exame de imagem.
- Resposta ao tratamento conservador bem feito, ou a falta dela.
- Impacto funcional real na sua vida. Não só a dor, mas o que a dor impede você de fazer.
Nenhum deles decide sozinho. Uma imagem feia sem limitação raramente justifica operar. Uma lesão pequena que impede você de trabalhar pode justificar.
A fisioterapia não funcionou. Então é cirurgia?
Calma. Antes disso, três perguntas:
- O diagnóstico estava certo? Fisioterapia perfeita para o problema errado não vai funcionar.
- A fisioterapia foi específica e progressiva? Ou foram dez sessões de calor e alongamento genérico?
- Houve tempo suficiente? Tendão crônico responde em meses. Muita gente desiste na semana 4 de um tratamento de 12.
“Fisioterapia que não funcionou” muitas vezes significa diagnóstico errado, dose errada ou tempo insuficiente. Se tudo foi bem feito e não houve melhora, aí sim a cirurgia entra na conversa, com indicação verdadeira.
O exame mostrou uma alteração feia. Preciso operar?
Não necessariamente. Atendi uma paciente de 50 anos com sequela de fratura e uma radiografia bem alterada. Ela tinha limitação para elevar e girar o braço, mas não sentia dor, mantinha a força e trabalhava normalmente como fisioterapeuta.
Quando há função, o tratamento conservador muitas vezes é a melhor escolha, mesmo com imagem ruim. Antes de olhar o exame e pensar em cirurgia, é preciso conversar com o paciente e examiná-lo.
O que é slow medicine?
Hoje parece proibido esperar. O ombro dói e já se pede ressonância sem examinar. Apareceu uma alteração e já se fala em operar.
Mas o corpo não funciona na velocidade de uma mensagem instantânea. Algumas melhoras levam semanas, outras, meses. Slow medicine não é fazer menos nem atender devagar. É fazer o que realmente importa, na hora certa. Às vezes, a decisão mais difícil para um cirurgião é dizer: ainda não é o momento.
Quando a cirurgia é, de fato, a melhor opção?
Existem situações em que operar muda o resultado. Alguns exemplos são fraturas muito desviadas, luxações que se repetem e lesões extensas com perda de função. Nesses casos, esperar demais também tem custo. A decisão certa começa pelo diagnóstico certo.
Perguntas frequentes
Depende do diagnóstico. Em problemas crônicos de tendão, a resposta costuma ser avaliada ao longo de cerca de três meses de tratamento bem feito.
Sim. Em cirurgia que não é de urgência, entender a indicação com calma faz parte de uma boa decisão.
Não. O especialista em ombro e cotovelo também conduz o tratamento sem cirurgia, que é o caminho da maioria dos pacientes.
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Quer entender se o seu caso é cirúrgico? Agende uma avaliação.
Dr. Fillipe Agra, médico ortopedista, especialista em ombro e cotovelo. CRM/SP 201.962 · RQE 144.556. Atendimento em São Paulo (Pinheiros), Porto Feliz, Araçatuba e Andradina, e online. Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica.
Referências
- Kuhn JE, Dunn WR, Sanders R, et al. Effectiveness of physical therapy in treating atraumatic full-thickness rotator cuff tears: a multicenter prospective cohort study. J Shoulder Elbow Surg. 2013;22(10):1371-1379.
- Kukkonen J, Joukainen A, Lehtinen J, et al. Treatment of nontraumatic rotator cuff tears: a randomized controlled trial with two years of clinical and imaging follow-up. J Bone Joint Surg Am. 2015;97(21):1729-1737.


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