Quem tem artrose no joelho quase sempre ouve falar da infiltração de ácido hialurônico, às vezes chamada de “lubrificante” ou “gel” para o joelho. A pergunta que aparece no consultório é direta: isso funciona mesmo? A resposta honesta é que o benefício existe para poucos e costuma ser pequeno. Neste texto você entende o que é o ácido hialurônico, o que os maiores estudos mostraram e em que situações ele ainda pode ser considerado.
O que é o ácido hialurônico e por que ele é injetado no joelho?
O ácido hialurônico é uma substância que o próprio corpo produz. Ele está presente no líquido que fica dentro da articulação, chamado líquido sinovial, e ajuda a deixar esse líquido mais espesso, funcionando como amortecedor e lubrificante.
Na artrose, a cartilagem que reveste o osso se desgasta e o líquido da articulação perde parte dessa qualidade. A ideia da infiltração, também chamada de viscossuplementação, é repor esse componente com uma injeção dentro do joelho, na tentativa de reduzir a dor e melhorar o movimento. Existem produtos de dose única e outros aplicados em três a cinco sessões semanais.
O que dizem os estudos sobre o ácido hialurônico no joelho?
O ácido hialurônico é um dos tratamentos mais estudados para a artrose do joelho. O problema é que muitos estudos antigos eram pequenos e alguns tinham risco de viés. Quando os pesquisadores separaram apenas os estudos maiores e mais bem feitos, o resultado ficou mais modesto.
- Revisão de 2022 com mais de 21 mil pacientes: reuniu 169 estudos. Nos estudos maiores comparados com placebo, com quase 9 mil participantes, o ácido hialurônico reduziu a dor em média 2 milímetros numa régua de 0 a 100. É uma diferença real nos números, mas pequena demais para o paciente perceber no dia a dia. Os autores também encontraram um risco um pouco maior de eventos adversos sérios no grupo que recebeu a injeção e concluíram que os dados não apoiam o uso amplo.
- Análise de 2025 com 22.795 participantes: comparou 18 tipos de infiltração usando apenas estudos grandes, com pelo menos 100 pacientes por grupo. Nos estudos de melhor qualidade, o ácido hialurônico não teve efeito sobre a dor quando comparado ao placebo. A infiltração com corticoide foi a que mais aliviou a dor, mas só por algumas semanas.
- Diretriz da academia americana de ortopedia, de 2022: após revisar as evidências, não recomenda o ácido hialurônico como tratamento de rotina para artrose do joelho.
Quando o ácido hialurônico foi comparado ao plasma rico em plaquetas (PRP), o PRP se saiu melhor. Uma revisão de 2025 com 42 ensaios randomizados mostrou dor e função melhores com o PRP, com efeitos colaterais um pouco mais frequentes, todos leves. Outra análise, de 2023, com 35 estudos e 3.104 pacientes, apontou o PRP, sozinho ou associado ao ácido hialurônico, como a opção com melhores resultados em 3, 6 e 12 meses. Vale lembrar que muitos desses estudos são menores e usam preparos de PRP diferentes entre si, o que limita as conclusões.
Pela Resolução CFM nº 2.464/2026, o PRP é autorizado no Brasil como tratamento complementar na artrose do joelho. Ele não é promessa de cura, não garante regeneração da cartilagem e não substitui uma cirurgia quando ela é indicada.
| Infiltração no joelho | O que os estudos mostram | Ponto de atenção |
|---|---|---|
| Ácido hialurônico | Benefício médio pequeno, perto do placebo nos estudos maiores | Custo alto; não regenera cartilagem |
| Corticoide | Melhor alívio da dor a curto prazo (2 a 6 semanas) | Efeito passageiro; aplicações repetidas pedem cautela |
| PRP | Resultados melhores que o ácido hialurônico nas comparações diretas | Complementar; estudos com preparos variados |
Então por que algumas pessoas dizem que melhoraram?
Os estudos mostram um efeito médio. Dentro desse grupo existem pessoas que melhoram bastante e outras que não sentem diferença. Além disso, a dor da artrose oscila naturalmente, com fases melhores e piores, e toda injeção feita dentro da articulação tem um efeito placebo considerável. Por isso a melhora que alguém sente depois da aplicação nem sempre vem do produto em si.
Para quem o ácido hialurônico pode fazer sentido e para quem não serve?
Mesmo sem ser tratamento de rotina, ele ainda pode ser discutido em situações específicas, sempre como parte de um plano maior:
- pessoas com artrose leve a moderada que já fazem fortalecimento muscular, controle de peso e atividade física, e ainda têm dor;
- quem não pode usar anti-inflamatórios por problemas no estômago, nos rins ou no coração;
- quem já teve boa resposta em aplicações anteriores, sabendo que parte dessa resposta pode ser efeito placebo.
Em geral, não faz sentido apostar no ácido hialurônico quando:
- a artrose é avançada, com o joelho “osso com osso”, deformidade ou perda importante de movimento;
- o paciente ainda não tentou o tratamento básico, que é o que tem a melhor evidência: exercício, perda de peso quando necessária e fisioterapia;
- existe infecção na pele ou no joelho, ou a dor tem outra origem, como lesão de menisco travando o joelho ou dor que vem da coluna ou do quadril.
Quando procurar avaliação?
Procure um ortopedista se a dor no joelho dura mais de algumas semanas, atrapalha a caminhada, o sono ou o trabalho, se o joelho incha com frequência, trava ou falseia, ou se você está considerando uma infiltração. A consulta serve para confirmar se a dor é mesmo da artrose, avaliar o grau de desgaste e montar um plano realista, que pode incluir ou não algum tipo de infiltração.
Perguntas frequentes
Depende do produto. Existem versões em dose única e esquemas de três a cinco aplicações com intervalo de uma semana. O número de aplicações não muda o fato de que, nos estudos grandes, o benefício médio foi pequeno.
Não. Os estudos não mostram que o ácido hialurônico faça a cartilagem desgastada voltar a crescer. Quando há melhora, ela é dos sintomas, como dor e rigidez, e costuma ser temporária.
Nas revisões que compararam os dois, o PRP teve resultados um pouco melhores de dor e função. Pela resolução do CFM, o PRP é autorizado como tratamento complementar na artrose do joelho, mas não é cura e não substitui cirurgia quando ela é indicada. A escolha deve ser feita em consulta, caso a caso.
Leia também: PRP funciona ou é modinha? O que mudou com a nova resolução do CFM · Artrose do ombro: quando a cartilagem se desgasta e a prótese é uma opção
Tem artrose no joelho e quer saber se uma infiltração faz sentido no seu caso? Uma avaliação individual ajuda a escolher o tratamento com base no seu exame e nas evidências.
Dr. Fillipe Agra, médico ortopedista, especialista em ombro e cotovelo. CRM/SP 201.962 · RQE 144.556. Atendimento em São Paulo (Pinheiros), Porto Feliz, Araçatuba e Andradina, e online. Este conteúdo é educativo e não substitui uma consulta médica.
Referências
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- Pereira TV, Saadat P, Bobos P, Iskander SM, Bodmer NS, Rudnicki M, et al. Effectiveness and safety of intra-articular interventions for knee and hip osteoarthritis based on large randomized trials: a systematic review and network meta-analysis. Osteoarthritis Cartilage. 2025;33(2):207-17. PubMed
- Brophy RH, Fillingham YA. AAOS Clinical Practice Guideline Summary: Management of Osteoarthritis of the Knee (Nonarthroplasty), Third Edition. J Am Acad Orthop Surg. 2022;30(9):e721-9. PubMed
- Xu H, Shi W, Liu H, Chai S, Xu J, Tu Q, et al. Comparison of hyaluronic acid and platelet-rich plasma in knee osteoarthritis: a systematic review. BMC Musculoskelet Disord. 2025;26(1):236. PubMed
- Qiao X, Yan L, Feng Y, Li X, Zhang K, Lv Z, et al. Efficacy and safety of corticosteroids, hyaluronic acid, and PRP and combination therapy for knee osteoarthritis: a systematic review and network meta-analysis. BMC Musculoskelet Disord. 2023;24(1):926. PubMed


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